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Soledad Barret Viedma vítma ou duas vezes culpada?

01/10/2010

Em 08 de janeiro fez 34 anos que Soledad Barret Viedma foi assassinada. Ela era militante da VPR – Vanguarda Popular Revolucionária e estava grávida de 7 meses. O pai da criança assassinada ainda em seu ventre era o controverso Cabo Anselmo: o próprio delator de seu esconderijo em uma chácara no loteamento de São Bento, no município de Paulista, em Pernambuco. Junto com outros companheiros de guerrilha, Eudaldo Gomes da Silva, Pauline Reichstul, Evaldo Luís Ferreira de Souza, Jarbas Pereira Marques e José Manoel da Silva, que são torturados e mortos pelo assassino profissional a serviço da ditadura, delegado Sérgio Paranhos Fleury do DOPS Paulista, amigo de Erasmo Dias, que faleceu recentemente sem responder a um processo sequer. O episódio ficou conhecido como “massacre da chácara São Bento”.

Fora casada anteriormente com José Maria Ferreira de Araújo, desaparecido e provavelmente assassinado, responsável por sua vinda para o Brasil. Viveu na Argentina e no Uruguai, onde foi raptada por um grupo néo-nazista que a colocou em um automóvel e, sob ameaças de todos os tipos, quiseram obrigá-la a gritar palavras de ordem totalmente contrárias às suas idéias. Ela se negou e então, com uma navalha lhe gravaram na carne uma cruz gamada, símbolo de Hitler e a abandonaram em um local escuro, atrás do parque zoológico de Villa Dolores. Para a polícia uruguaia, também vivendo em época de ditadura, foi considera não vítima, mas culpada. Sua situação era insustentável. Um dia conheceu José Maria, se amaram e tiveram uma filha, mas o destino estava traçado, e ele retornou a seu Brasil. Ela acabou por vir um ano mais tarde. A filha de Soledad vive hoje em Santa Catarina.

Os torturadores e assassinos crivaram de balas os cadáveres dos seis combatentes, jogaram várias granadas na casa da referida chácara, com o objetivo de aparentar um violento tiroteio, dizendo que lá se realizava um suposto congresso da VPR. Na versão oficial, constava que José Manoel da Silva teria sido preso e conduzido os policiais até o local onde se realizava o congresso, sendo morto pelos próprios companheiros durante a invasão. No tiroteio travado, teria conseguido escapar Evaldo Luís Ferreira de Souza que, no dia seguinte, foi localizado no município de Olinda, numa localidade chamada “Chã de Mirueira” – Jatobá, e ao resistir à prisão, teria sido morto. Segundo ainda a nota, só Jarbas Pereira Marques teria morrido no local, sendo que os outros morreram, em conseqüência dos ferimentos recebidos.

Na realidade, todos foram presos pela equipe do delegado Sérgio Fleury, que os torturou até a morte, na própria chácara.

Cabo Anselmo foi um dos estopins da revolução de 1964 ao ter sido líder do protesto dos marinheiros. O então ministro de João Goulart prendeu todos os integrantes do motim mas o presidente destituiu o ministro e anistiou os revoltosos. Com a instalação da ditadura, Anselmo, que na realidade era soldado e não cabo, fugiu do Brasil, esteve no Urugai, foi para Cuba aprender táticas militares e retornou na clandestinidade. Em 1970 foi preso pelo mesmo Fleury e, para preservar sua vida, tornou-se agente duplo, atuando ao lado da guerrilha e fornecendo informações à ditadura, o que causou o assassinato de vários companheiros. Chegou a solicitar reconhecimento como vítima da repressão e solicitou aposentadoria com base em sua patente na Marinha Brasileira.

Época conturbada na qual não haviam direitos. Muito menos humanos. Época que deve ser lembrada. Assassinatos que devem ser investigados e julgados, pois se deram sem direito algum, sem julgamento e com requintes de crueldade.

Hoje, os amigos da ditadura querem que, como no passado, Soledad seja apontada, pela segunda vez, como culpada e não como vítima.

Fonte: Tortura Nunca Mais.

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From → Sociedade

10 Comentários
  1. Não deixam nem os mortos descansar.
    Abraços forte

  2. Lilian permalink

    Olá querido amigo,

    Parabéns pela postagem.

    Texto excelente. Traz à lembrança um período vergonhoso para o Brasil.
    Deveriam deixar a “Soledad” em paz, depois dos horrores por quais passou.

    Carinhoso e fraterno abraço,
    Lilian

    • erickfigueiredo permalink

      É verdade, Lilian, infelizmente alguns querem que esqueçamos o que não se pode nem se deve esquecer. Obrigado pelo comentário.

  3. Armando do Prado permalink

    Sei do que v. fala. Em 1970 eu com 16 anos estava preso no Quartel Central de Itu sendo torturado pelo psicopata do coronel-comandante. É preciso reescrever nossa história, para que os canalhas sejam colocados nos devidos lugares. É preciso que honremos os nosso heróis e heroínas, como Soledad, Lamarca, Marighela e tantos outros que não se acovardaram.
    Qto. ao canalha do Anselmo desejo que viva 150 anos, pois a morte seria sua libertação. Cada dia de vida é o pp. inferno para esse covarde.

    • erickfigueiredo permalink

      É realmente necessário reescrever nossa história para que jamais seja de novo permitidas atrocidades como as narradas por você.
      Obrigado pelo importante testemunho.

    • William Xavier permalink

      Amigo, todo torturador é um psicopata. Um psicopata no sentido clínico, mesmo.

      “A psicopatia é um distúrbio mental grave caracterizado por um desvio de caráter, ausência de sentimentos genuínos, frieza, insensibilidade aos sentimentos alheios, manipulação, egocentrismo, falta de remorso e culpa para atos cruéis e inflexibilidade com castigos e punições.” fonte: wikipedia

      O ex- delegado Sergio Paranhos Fleury, o delator José Anselmo dos Santos (Cabo Anselmo), Fininho do DOPS, Carlos Alberto Brilhante Ustra, Carlos Alberto Augusto (Carlinhos do DOPS) … eram psicopatas que usavam a “lei” para saciar suas perversões.

      • erickfigueiredo permalink

        Acredito que podemos chamar o torturador de sociopata.
        Obrigado pela visita e comentário.

  4. Olivia permalink

    Soledad era paraguaya. Es importante que aparezca ese dato en este blog.

    • erickfigueiredo permalink

      Gracias por venir y la información.
      Me alegro de ser su tierra paraguaya, donde mi padre vivió por algún tiempo.
      Saludos.

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