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O conto do sucesso da privatização das telecomunicações no Brasil

01/02/2010

Os contos sobre sucessos da privatização são inúmeros. Dariam para escrever contos durante mil e uma noites. Mas hoje vou me ater a apenas um. O conto do acerto na privatização da telefonia no Brasil. Uma vitória dos brasileiros na conquista de uma telefonia de primeiro mundo.

Os argumentos são irrefutáveis. Eu me lembro que há 20 anos atrás, para se adquirir um telefone tínhamos duas opções: ou esperávamos por, no mínimo dois anos, adquirindo um “plano de expansão” da telefônica, que consistia na compra de ações através do que, como acionistas, adquiríamos o direito a uma linha telefônica ou teríamos que pagar uma fortuna por um dos bens mais valiosos do país, que era uma linha telefônica.

Naqueles tempos um telefone valia mais do que um carro ou uma casa. Existiam empresas especializadas na comercialização de linhas telefônicas. Equivaliam a bancos. Os valores envolvidos eram muito grande. Outras empresas faziam empréstimos tendo como garantia uma linha telefônica. Se o pobre coitado não pagasse, perdia sua valiosa linha telefônica. As compras e vendas de telefones eram registradas na empresa de telefonia e em cartório, como são até hoje os imóveis.

Haviam pessoas que viviam de aluguel de telefones. Estas pessoas compravam vários planos de expansão ou investiam na compra de linhas telefônicas. Uma linha telefônica alugada rendia um bom dinheiro e o aluguel de algumas linhas era capaz de sustentar uma família assim como é hoje o rendimento de residências médias.

Tudo isso é passado. Ninguém acreditava mas acabou. No governo de Fernando Henrique Cardoso se deu o “milagre”. O Ministro das Comunicações era o Sérgio Motta, que costurou um intrincado planejamento e foi substituído, após sua morte, por Luiz Carlos Mendonça de Barros, que era presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). no Lugar de Luiz Carlos foi posto como presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES),  André Lara Resende

Esta é a parte da história que querem que acreditemos. E muita gente inocente acredita. Mas tudo isto foi um longo e tortuoso processo.

Após a privatização, ou melhor, da desestatização (esta era a palavra utilizada na época), tudo melhorou. Hoje basta ligar para a empresa de telefonia e o telefone é instalado quase que imediatamente. Mudou da água para o vinho, não é mesmo? Fernando Henrique sempre disse que o governo era um péssimo empresário e tinha razão em parte. No tempo dele e antes o governo era, de forma muito conveniente, um péssimo administrador. Principalmente da coisa pública. Senão vejamos…

Era tempo da ditadura militar e, também para os militares que estavam no poder, telefonia era questão estratégica e de segurança nacional. Mas um processo de desmonte se iniciou no governo de Hernesto Geisel, ainda nos tempos da ditadura, na década de 80.  Naquele tempo vivíamos uma violenta inflação. O Brasil devia muito dinheiro e os credores pressionavam para que mais e mais recursos fossem destinados ao pagamento da então impagável dívida externa. Delfim Neto era o poderoso guru que determinava os rumos da economia brasileira e criou a famigerada Secretaria de Controle das Estatais (SEST). Antes disso, havia uma enorme arrecadação através do Fundo Nacional de Telecomunicações (FNT) que era gerido pelas próprias empresas estatais que formavam o Sistema de Telecomunicações Brasileiro (Telebrás). Após a criação da SEST, cuja função era controlar as estatais, o dinheiro do FNT arrecadado dos contribuintes era destinado ao pagamento da dívida externa. E durante 16 anos os investimentos em telecomunicações eram ínfimos. Sem investimento durante tanto tempo as empresas definhavam. Como se vê, o governo era mesmo um péssimo administrador.

E houve a privatização, que após conchavos, idas e vindas, ficou assim:  os espanhóis da Telefonica compraram a Telesp. A Tele Centro Sul foi parar nas mãos do Opportunity (aquele do Daniel Santas) e da Telecom Italia. Para o consórcio de Jereissati (este mesmo, o Tasso) e Andrade Gutierrez, sobrou a atual Oi. Mas faltou dinheiro para pagar a conta. Coube aos fundos de pensão e ao BNDES entrar em ação para dar suporte à empreitada. A venda foi subfaturada. O BNDES financiou tudo. Uma CPI foi abafada e tudo ficou bem. Mesmo depois de ações movidas contra os evidentes indícios de fraudes e favorecimentos. Mesmo após as incessantes ações contra o Opportunity e Daniel Dantas. Mesmo depois de suspeitas de desvios e ações ilícitas com dinheiro em paraísos fiscais e favorecimentos a políticos.  Tudo foi superado até agora. Mas quem sabe toda a patranha venha à tona um dia?

Hoje sabemos que pagamos o mais alto preço de tarifa telefônica do mundo e temos um péssimo serviço. Se nos tempos de Fernando Henrique tivéssemos um Estado que soubesse administrar, não teríamos isto. Quem sabe hoje a Telebrás, empresa estratégica e que envolve a segurança nacional, fosse tão eficaz como é a Petrobrás, que também quase foi parar nas mãos dos estrangeiros…

Se quiser saber um pouco mais sobre privatizações de empresas de Telefonia visite o sítio de Virgílio Freire.

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From → Sociedade

7 Comentários
  1. Essas companhias foram privatizadas e deram lucros aos bolsos deles e nós continuamos, talvez um pouco melhor mais abandonados com as pretações de serviços.
    Abraços forte

  2. Saudações!
    Que Post Fantástico!

    Amigo Erick, muito bem lembrado esse caminho obscuro e tortuoso da telefonia no Brasil que você descreveu de forma brilhante!
    Agora, meu amigo, eu tenho certeza só de uma coisa, pode passar 1000 anos, mas tudo essa maracutaia virá à tona, disso eu tenho certeza!
    Parabéns pelo excelente Post!
    Abraços,
    LISON.

    • erickfigueiredo permalink

      Sem dúvida alguma, amigo Lison. Obrigado pelo comentário.

  3. O Celular Espião é um telefone celular comum, especialmente modificado para poder ser monitorado à distância, permitindo assim escutar as conversas telefônicas e ambientais de quem o utiliza.
    http://www.celularespiaobrasil.com

  4. herminio permalink

    Caro Erick, como é animador ler seu comentário e perceber que cada vez menos ingenuos se contentam com o que a mídia divulga. Esse é o caminho. Acompanhar os fatos, buscar o contraditorio, raciocinar, pensar e tirar conclusões. Para isso temos cérebro. Parabéns.

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