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Neoliberalismo e o fim da política

11/20/2009

Transcrição de artigo da escritora Márcia Denser no site “Congresso em Foco

Nesta Semana da Consciência Negra, talvez seja preciso invocar a evolução da crescente, simétrica e oposta Inconsciência Branca, no mais puro e cocainômano sentido neonazista da cor – ou ausência dela –, o que dá uma inconsistência superlativizada de vários graus, alinhada com todos os preconceitos, racismos, discriminações e assédios, sejam morais, genéricos ou etários.

Reflexão com dor é ironia que custa os olhos da cara, daí a necessidade de voltar à tese da irrelevância da política, aliás atribuída à supracitada inconsciência cínica de uma camada dominante – branquíssima, esta – que sequer se dá mais ao trabalho de se levar a sério, conectada a um capitalismo que dispensa qualquer institucionalidade extra-econômica, salvo a penal, e não por acaso em expansão turbinada.

Então vou me apropriar dumas reflexões de Paulo Arantes – para não ficar citando academicamente, tirando e botando aspas, engessamentos à parte que não combinam com este espaço informal (onde se mata um leão por dia e é preciso ser genial) e espantam o leitor. Quer dizer, vou parafraseá-lo descaradamente, ele e seu estilo encantadoramente virulento.

A certa altura do texto, Arantes, questionado sobre se a política teria perdido a capacidade de dirigir a sociedade, respondeu que algumas revisões ingratas precisariam ser feitas, entre elas, a verificação de que o discurso político dos direitos de cidadania (degradado pela onguinização canalha de mil parcerias fajutas) estava correndo por uma pista inexistente; de que o neoliberalismo não era apenas uma política econômica perversa a ser descartada assim que a correlação de forças fosse menos adversa e substituída por uma macroeconomia de esquerda que resgatasse o Banco Central do seu cativeiro no mercado etc. E por quê?

Na sociedade moldada pelo modo capitalista de produção, ele explica, vigora a lei da troca de equivalente por equivalente, salvo no que diz respeito à força de trabalho, cujo consumo produz um excedente que faz o bolo do capital crescer. Ocultando o mundo subterrâneo da produção, vale para todo o resto o princípio da igualdade, ancorado na troca generalizada, da esfera da circulação de mercadorias ao Parlamento, norma que o movimento histórico da classe trabalhadora tratou de universalizar por meio da luta política contra todos os obstáculos e anacronismos que a burguesia ia botando no caminho. Mas aqui há uma ruptura histórica entre o mundo do trabalho e a centralidade moderna da política.

Segundo o critério burguês, se todas as desigualdades deviam aparecer como uma injustiça inaceitável, também era inegável a matriz política do dano a ser reparado, bem como plausível enxergar, nos mesmos termos políticos, a exploração econômica como uma desigualdade intolerável, demandando assim a compensação de um “salário justo”. Portanto, não deveria surpreender que a decomposição da sociedade salarial tenha decretado o fim da política, bem entendida como forma histórica de igualação de interesses e direitos correlatos. E o fim da política numa sociedade antagônica é sinônimo de violência explosiva, daí a militarização generalizada e a conversão do Estado social em Estado penal.

Mas a política que se tornou irrelevante é a política burguesa implementada com o braço esquerdo das lutas das classes oprimidas, que forçaram sua entrada no jogo da troca de equivalentes em igualdade de condições. No passado, foi o que salvou o capitalismo da autodestruição, mas como essa simbiose contraditória entrou em colapso, a guerra retornou. Porque o Estado não cessa de transferir poder para o mercado – o neoliberalismo é isto, uma tecnologia de poder para que haja mercado, e não a despeito do mercado, para corrigir suas disfunções – quer dizer, transfere cada vez mais soberania para as empresas, até o limite do poder punitivo penal.

Infelizmente, na periferia do sistema, isto é, no Brasil, não se formou esse sujeito coletivo capaz de enfrentar a nova soberania empresarial que hoje dispõe inclusive de milícias próprias e um sistema judiciário particular. De forma que o novo nome do jogo é exploração nua e crua, tão mais intensa quanto mais o trabalho vai se tornando redundante e o emprego escasso, uma forma brutalizada de controle social, sem contar o decorrente encarceramento em massa.

O jogo da falecida política também se inverteu: são as empresas soberanas que administram as políticas de sua conveniência, sobretudo as públicas, da TV digital à gestão do aterro sanitário social onde nos metemos até o pescoço. Para identificar o novo sujeito coletivo, é preciso olhar para o mapa da exploração. Ao redistribuir pelo planeta suas cadeias produtivas, ao subcontratar, terceirizar, informalizar, precarizar, as grandes corporações estão reordenando as relações entre espaço e poder mundo afora, isto é, estão favelizando, suburbanizando, bunkerizando etc.

No entanto, numa economia tocada por uma falsa mercadoria como a informação, cuja riqueza livre é subtraída pela apropriação empresarial, cedo ou tarde chegaremos também ao coração da cadeia de comando, pois afinal informação sem uma inteligência viva que a decifre é arquivo morto. Para desarmar a maldita ratoeira, Arantes é categórico: precisaríamos inventar uma “outra campanha”, algo que conjugasse desobediência civil e mobilização em massa.

Enquanto o coletivo não vem, individualmente já estou fazendo a minha parte: tentando ampliar os níveis da consciência, atualmente tão embaçada por tantas falcatruas discursivas. Graças à Semana da Consciência Negra e às apropriações aranteanas. O meu bom filósofo e as pessoas de todas as raças não vão se importar: afinal, é por uma boa causa.

*A escritora paulistana Márcia Denser publicou, entre outros, Tango Fantasma (1977), O Animal dos Motéis (1981), Exercícios para o pecado (1984), Diana caçadora (1986), A Ponte das Estrelas (1990), Toda Prosa (2002 – Esgotado), Diana Caçadora/Tango Fantasma(2003,Ateliê Editorial, reedição), Caim (Record, 2006), Toda Prosa II – Obra Escolhida (Record, 2008). É traduzida na Holanda, Bulgária, Hungria, Estados Unidos, Alemanha, Suiça, Argentina e Espanha (catalão e galaico-português). Dois de seus contos – O Vampiro da Alameda Casabranca e Hell’s Angel – foram incluídos nos 100 Melhores Contos Brasileiros do Século, sendo que Hell’s Angel está também entre os 100 Melhores Contos Eróticos Universais. Mestre em Comunicação e Semiótica pela PUCSP, é pesquisadora de literatura, jornalista e curadora de Literatura da Biblioteca Sérgio Milliet em São Paulo.

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From → Sociedade

2 Comentários
  1. Saudações!
    Amigo Erick,
    Esse artigo vou precisar ler mais vezes, dado ao elevado conteúdo.
    Um texto verdadeiramente instrutivo, e procura despertar uma nova consciência. Em linhas gerais é a “justiça particular” dos poderosos que nos enfiam goela abaixo todo esse lixo do obedece e faz o que eu mando e está acabado depois vou pensar na hipótese da idéia de pensar na tua situação.
    Por outro lado fica patente, que a nova ordem mundial patrocinada pela burguesia é asfixiar o homem e arremessá-lo aos penhascos sem fundos, retirando-lhes a oportunidades de ver um raio de esperança.
    Desse modo devem conseguir o fim da política!
    Parabéns pelo excelente Post.
    Abraços fraternos.
    LISON.

    • erickfigueiredo permalink

      O neoliberalismo pretende transferir para a inciativa privada responsabilidades que deveriam ser do governo. Além disso a informação assume o papel de partido político através da manipulação da informação a fim de tornar bom aquilo que não seria recomendável. E é isto o que temos visto hoje em dia. A autora cita Paulo Arantes e pega carona do dia da consciência negra para conscientizar… Abraços fortes, Lison.

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