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Delmiro Gouveia – um exemplo empreendedor a ser seguido

11/20/2009

Recebi, em um comentário neste blog, a menção de Delmiro Gouveia. Todos devem ter ouvido falar da cidade, que é o único município de Alagoas que faz divisa com a Bahia, Sergipe e Pernambuco. Uma outra característica desta cidade, que fica à beira do Rio São Francisco, é o fato de ter sido construída, neste município, a primeira usina hidrelétrica do nordeste. Mas porque este município adotou este nome?

Origem de Delmiro

Delmiro Gouveia se chamava Pedra. Seu nome deveu-se a um empresário que nem alagoano era. Refiro-me a Delmiro Augusto da Cruz Gouveia, filho ilegítimo que nasceu a 5 de junho de 1863, no interior do Ceará. Seu pai morreu na guerra do Paraguai e sua mãe transferiu-se para Recife e, aos 15 anos, viu-se órfão de pai e mãe. Um de seus primeiros trabalhos foi o de bilheteiro na estação ferroviária de Olinda. Aos 18 anos, empregou-se na Alfândega, mas os despachos burocráticos nunca o seduziram. Antes que morresse de tédio, Delmiro foi trabalhar no comércio de “courinhos”, artigos de pele de bode e carneiro popularíssimos no Nordeste da época. Interessado na compra e venda de couro e peles de cabras e ovelhas vai para o interior de Pernambuco, onde casou-se (1883) com Anunciada Cândida de Melo Falcão, na cidade de Pesqueira. Trabalhou inicialmente como intermediário entre os produtores de peles de cabra, carneiro e couros de boi espalhados por todo o sertão nordestino e os comerciantes estrangeiros sediados no Recife. Trabalhou depois para a Keen Sutterly & Co., da Filadélfia, e tornou-se gerente de sua filial (1892). No ano seguinte, quando a matriz faliu, ele comprou seus escritórios no Recife e fundou a Casa Delmiro Gouveia & Cia (1896). Ligou-se à firma L. H. Rossbch, Brothers de Nova York e, com seu apoio financeiro e com postos de compra espalhados por todo o Nordeste, enriqueceu e tornou-se conhecido como o Rei das peles.

Seu defeito – Mulherengo

Delmiro era mulherengo mas excelente negociante. Construiu um enorme mercado onde se pudesse encontrar de tudo. O Mercado do Derby não demorou a ficar pronto. Era o primeiro estabelecimento comercial da capital pernambucana com energia elétrica, vendia produtos pela metade do preço e funcionava 24 por dia. Também contava com hotel, parque de diversões e restaurante. Podemos dizer que foi o primeiro shopping center do Brasil. E ficava em Pernambuco. E tudo isto em 1899. Construiu uma refinaria de açúcar que chegou a ser a maior da América do Sul. Autoritário e de temperamento difícil, à medida que enriquecia criava mais inimigos, especialmente entre os políticos pernambucanos entre eles o prefeito, que iniciou, nos jornais, uma campanha difamatória. Seu negócio foi incendiado e ele acumulou uma enorme dívida o que o levou a se separar da esposa (1901) e a refugiar-se durante um ano na Europa.

Nova aventura amorosa – recomeço

Voltou para o comércio de “courinhos” e o negócio prosperava quando, aos 40 anos, se apaixonou por Carmélia Eulina Amaral Gusmão, filha de uma senhora chamada Ana Gusmão, amiga íntima de Segismundo Gonçalves, presidente do Estado, de partido político adversário do partido de Delmiro Gouveia. Ele raptou a criança e a levou para o interior do estado, tendo com ela o primeiro de três filhos. Segismundo, que, segundo a voz do povo, era pai da moça de apenas 16 anos, entregou o caso à polícia com a ordem de liquidar com Delmiro, agora foragido da justiça. E foi assim que foi parar em Alagoas – fugindo da polícia.

Alagoas – seu maior empreendimento

Em alagoas retornou ao comércio de “courinhos” e associou-se a dois sócios italianos, Lionelo Iona e Guido Ferrário, fundando a firma Iona e Cia. De novo o negócio prosperou. Sua produção era exportada para os Estados Unidos para onde viajou e teve a oportunidade de conhecer usinas hidrelétricas. Ao ver as cachoeiras nas gargantas do “canyon” formado pelo Rio São Francisco na região, teve a idéia de montar uma usina siderúrgica. Foi a primeira hidrelétrica do Rio São Francisco e de todo o nordeste. Montou também um grande açude na cidade.

Organizou a Cia. Agro-Fabril Mercantil e com turbinas e geradores alemães e suíços, instalou, num dos saltos da cachoeira de Paulo Afonso, o de Angiquinho, no lado alagoano do rio, uma usina hidrelétrica que gerava 1.500 HP, com uma voltagem de 3 KV. Pessoalmente, escolheu, na Inglaterra, máquinas da indústria Dobson & Barlow, para uma fábrica, a Cia Agro-Fabril, que iniciou (1914), a produção de linhas de coser, para rendas e bordados, fios e cordões de algodão cru em novelos, fios encerados e fitas gomadas para embrulhos.

Essa indústria tinha características revolucionárias, no campo social, com uma vila operária, assistência médica, escola e cinema. Este empreendimento, porém, passou a prejudicar o monopólio dos ingleses no setor, pois com o início da Primeira Guerra Mundial, seus produtos escassearam no mercado e a produção da Pedra, a marca Estrela, logo se tornou conhecida por sua qualidade e resistência e obteve aceitação imediata. Produzindo mais de 20 mil carretéis por dia as linhas Estrela ganharam o Brasil e entraram nos mercados da Argentina, Chile, Peru e outros países andinos. A inglesa Machine Cotton, produtora das Linhas Corrente, reagiu registrando (1916) no Chile e Argentina a marca Estrela e, em seguida passou a pressionar Delmiro para vender a fábrica.

O assassinato

Ele resistiu à venda. “Cabra macho” não se intimidou. Só que, em 1917 foi assassinado misteriosamente. Na noite de 10 de outubro de 1.917, como era seu costume, Delmiro Gouveia sentara-se na sua cadeira de vime, no alpendre do chalé, debaixo de uma lâmpada elétrica forte que iluminava sua figura vestida de branco. Abriu os jornais para ler as notícias. Eram 21 horas. Por entre as plantas do jardim se esgueiraram três “cabras” armados de rifle. Apontaram: um tiro pegou num braço, um se perdeu, o outro feriu Delmiro no coração. Toda a cidade de Pedra acordou. Cem armas de fogo foram passadas às mãos dos trabalhadores que partiram em todas as direções, chorando pelas estradas. Os pistoleiros José Inácio Pio, João Roseo de Morais e Antônio Felix foram apresentados como culpados e a confissão foi arrancada debaixo de tortura e não tem a menor garantia da verdade. Quem mandou matar? Surgiram várias hipóteses, mas o processo, falho, jamais convenceu a qualquer jurista que o tenha estudado. E não convenceu também ao povo, que sabe perguntar a quem interessa? E a resposta é uma só: ao truste da Machine Cotton, encabeçado por J. P. Coats & Company e tendo como subsidiárias a Clark & Company, a Ross & Duncan e a Companhia Brasileira de linhas para coser, sediada em São Paulo.

O reconhecimento

Delmiro deixou saudades no povo, pois os trabalhadores tinham direito à creche e aprendiam a ler e a escrever à noite, depois do expediente. Teriam direito à aposentadoria mediante uma pequena contribuição voluntária que lhes garantiria uma velhice digna. Tudo isto muito antes de existir direitos trabalhistas, o que só viria a acontecer com Getúlio Vargas mais de vinte anos depois. Em 1915 Delmiro provou que o nordeste é viável. Sem indústria da seca, com garantias trabalhistas. Tudo isto irritava os “empresários” cariocas e paulistas acostumados às benesses do governo corrupto de então. E ainda deve irritar. Tanto é assim que depois de sua morte, sob a complacência do governo Washington Luis, a Machine Cotton exerceu um dumping criminoso vendendo suas linhas pela metade do preço de produção durante tempo suficiente para serem liquidadas as fábricas instaladas no país. E o complexo fabril de Pedra acabou sendo vendido (1929) em Paislay, Escócia, na sede da Machine Cotton, por 27 mil libras, seguindo-se sua destruição a marretadas por uma equipe de demolidores especialmente contratados (1930) e os destroços das máquinas inglesas ali instaladas, transportados em carretas puxadas por juntas de boi e jogados penhasco abaixo do São Francisco, cerca de 20 km de distância de Pedra.

Ele tinha seus defeitos mas o exemplo deixado deveria ser seguido por todo empresário – responsabilidade social em um tempo que isto era considerado um absurdo.

Fonte: Rádio Delmiro Correa – Wikpedia

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From → Sociedade

20 Comentários
  1. Saudações!
    Amigo Erick,
    Que Post Fantástico!
    É uma trajetória de vida impecável, com ressalvas ao fatídico esse guerreiro merece o respeito de todos os brasileiros. Já pensou, ele foi um pioneiro em lojas de conveniência, se pode dizer assim.
    O fato de levar luz elétrica, para uma região, que provavelmente vivia as escuras, é desafiador e impressionante, a fora ser portador de um espírito de fibra para encarar os desafios de concorrentes de envergadura.
    Gostei muito da narrativa, simplesmente, magistral!
    Quantos as mulheres, deve ser um acerto de todos nós!
    Parabéns pelo excelente Post!
    Abraços fraternos,
    LISON.

    • erickfigueiredo permalink

      Quem indiretamente sugeriu este estudo foi nosso amigo Arierom Salik – Herege que o citou no artigo que publiquei anteriormente, sobre o Quilombo do Palmares. A menção despertou meu interesse. Fiquei impressionado com sua vida e trajetória. A tal ponto que fui escrevendo de um só fôlego até concluir o trabalho.
      Obrigado pelo comentário.

  2. Gostei de ler, muitos não conhecem os grandes empreendedores do Brasil.
    Parabéns belo post.

  3. João Carlos Quintino permalink

    Depois de ler esta biografia, embora breve deste pioneiro, Delmiro Golveia, fiquei particularmente interessado em conhecer melhor a cidade que tem seu nome, e também a região. Já estou programando minha viagem. Parabéns pela iniciativa de escrever este post.

    • erickfigueiredo permalink

      Obrigado pela visita. Esta biografia realmente é impressionante.

  4. Ernando Rebouças permalink

    Sou cearense de Itapipoca e cabra da peste como Delmiro Goveia. Em novembro de 2009 passei por Delmiro Goveia quando ia à Sergipe. Achei a cidade limpa e muita organizada. Achei esse nome familiar. Mas não tinha a menor ideia quem era Delmiro Goveia. Somente hoje foi que vim pesquisar sobre a cidade e o homem Delmiro Goveia. Aí foi que vi que essa cidade recebe esse nome em homenargem ao meu conterraneo Delmiro Goveia. Que história linda, mas com um final triste. Uma tragedia. Não se assassinou um homem, mas assassinaram o progresso do sertão nordestino. Hoje o Nordeste precisa de cabra da peste como Delmiro Goveia. Um dos maiores brasileiros de todos os tempos, mas pouco conhecido. Se fosse nos EUA o governo teria o ajudado e ele teria se tornado um dos homens mais ricos do mundo, como Rockfeller. Além do mais em cada praça haveria uma estatua dele. Nos livros didaticos haveria a historia dele servindo de exemplo para os emprendedores. Como é no Brasil sua historia ficou perdida no tempo. Bravo Delmiro Goveia, precursor da indútria nordestina e até braseleira.

    • erickfigueiredo permalink

      Hoje o nordeste de novo se agiganta. E o Ceará, que nos presenteou com ilustres personagens conhecidos ou nem tanto merece o reconhecimento de todo o Brasil. A história deste ilustre brasileiro nos impressionou. E empreendedores como ele merecem nosso respeito e admiração.
      Obrigado pela visita.

  5. maria permalink

    o terra linda amo muito a minha terra natal um dia voltarei a morra nela

  6. Quem dera que os BRASILEIRO acordasse para serem empreendedores em vez de estar mendigango atrás de empregos de um salário minimo.

    DELMIRO UM GRANDE EMPREENDEDOR

    É válido acolhermos alguns ideias dele, no que condiz com empreendimento.

  7. ceicao permalink

    mais que cidade linda estou com saudade

  8. Nison(Passinho) permalink

    Nao vejo a hora de retornar a minha linda cidade, tomara ja chegue dezembro. Saudades!!

  9. tello silva permalink

    muito interessante mesmo, nascido em delmiro gouveia, fui para sao paulo com menos de um ano de idade, moro nos EUA desde 1989, espero um dia voltar para o brasil e conhecer essa cidade.

    • erickfigueiredo permalink

      O Brasil e particularmente o nordeste tem melhorado muito. Será muito bom ter um, conterrâneo de volta.
      Obrigado pela visita e comentário.

  10. tello silva permalink

    ernando…moro nos EUA e concordo que aqui ele seria reconhecido bem mais, pois eu assisto muita biografia na tv e vejo muita personalidade que nao e mencionado no dia a dia, agora estatua em toda praca e exagero…talvez uma ponte, tunel,livraria,nome da praca, predio,..hahaha se cuida!!

  11. Paulo Roberto Barbosa Mattos permalink

    Quando estive em Delmiro Gouveia (2004) ao chegar na cidade,pude perceber que se tratava de um lugar diferenciado. A cidade por si só te da as boas vindas por se tratar de um lugar limpo, bonito e aconxegante. Foi amor a primeira vista e ainda não conhecia a historia deste bravo nordestino que deu origem ao nome da cidade.Agora fiquei mais impressionado ainda e pretendo um dia visitá-la novamente e quem sabe até morar lá? Que essa biografia sirva de exemplo para aqueles que tem condições de fazer alguma coisa de bom pelo nordeste e pelo povo nordestino.

    • erickfigueiredo permalink

      Acredito que o nordestino não precisa que ninguém faça nada por ele, pois se trata de um povo valoroso e de coragem. O que precisamos é acreditar nestes brasileiros. Um dia talvez me mude para o nordeste…
      Muito obrigado pela visita e comentário.
      Abraços

  12. Quitéria Melo de Santana permalink

    Para mim foi uma surpresa rever minha cidade natal,vim para São Paulo no ano de 97,já voltei duas vezes a passeio para rever minha familia,sinto muita saudade de todos que deixei por lá,um dia se Deus quizer voltarei para minha querida terrinha.felicidades á todos.

    • erickfigueiredo permalink

      Obrigado pelo comentário. Uma bela cidade em homenagem a um grande empresário.

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