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O caminho do centro

11/18/2009

Reproduzo abaixo artigo de Mauro Santaiana publicado no Jornal do BrasilJB On Line:

Filho de João Pinheiro, a quem se atribui a constatação de que “Minas tem o grave senso da ordem”, Israel Pinheiro repetia sempre que, em política, só são possíveis as “soluções naturais”. A frase de João Pinheiro sempre teve interpretação conservadora – mas o político do Serro havia sido ativo republicano, e foi dos pioneiros do desenvolvimento econômico do Estado, com o estímulo ao ensino profissional, às pesquisas no campo da agricultura e a importação de máquinas. Afastado da política ativa durante alguns anos, criou indústria cerâmica avançada para a época, em Caeté.

O filho, Israel, pragmático desenvolvimentista, foi secretário de Benedicto Valladares, incorporador da Cia. Vale do Rio Doce e construtor de Brasília. Último governador de Minas a ser eleito em 1965, logo em seguida ao golpe, manteve hábil relação com o governo federal, defendendo, com paciência, mas firmeza, os interesses do estado. Idêntica postura teve Negrão de Lima, que se elegeu governador da Guanabara na mesma ocasião. O segredo mineiro da política (ou de uma corrente mineira da política) é a busca do “caminho do meio”, que não é, como muitos imaginam, posição de comodismo. Governar pelo centro é conter os arroubos inconsequentes de uns e a reação histérica de outros, na ativa defesa dos interesses permanentes da nação.

Os mineiros sempre buscaram o desenvolvimento de seu estado e do país, e nisso nunca lhes faltou ousadia. Articular os conservadores e os reformistas em torno de um projeto de progresso econômico e social é atitude que sempre tem dado certo. Assim atuou também Juscelino, tanto no governo do estado quanto na Presidência da República.

No governo do estado, ele entendeu que não bastava contar com os parcos recursos orçamentários para retirar Minas do atraso relativo em se encontrava, emperrada pela agropecuária conservadora. Buscou os recursos da poupança privada, mediante a emissão de títulos do estado (apólices do binômio Energia e Transportes). Assim nasceu a Cemig e se abriram as principais rodovias mineiras. Foi-lhe possível fazer tudo isso, porque soube conduzir bem a vida política e convencer os opositores da importância dos projetos que interessavam à comunidade montanhesa.

Essa mesma atitude ele a levou para a Presidência da República. Embora mantivesse os ritos administrativos rotineiros, rompeu a burocracia conservadora da União, criando os grupos interministeriais de trabalho, os famosos “grupos executivos”, que se encarregaram de atingir as suas metas de governo, estabelecidas ainda durante a campanha eleitoral. A retórica doutrinária era contida, mas ousada a ação administrativa. Na ação administrativa se expressava o discurso político. Ele discursava com números, prometia com objetivos, regozijava-se com os resultados. Seu marketing (para usar-se esse estrangeirismo incômodo) estava nas imagens do feitor de obras de Brasília, no desbravador da selva, ao lado de Bernardo Sayão, no incansável cobrador de tarefas, muitas vezes madrugada alta, em telefonemas que arrancavam seus auxiliares da cama para saber se determinada tarefa havia sido cumprida.

Se o atual governador de Minas será candidato, ou não, à Presidência, vai depender das volúveis circunstâncias da vida partidária. Mas ele está cumprindo os ritos da velha política montanhesa, ao indicar o caminho do centro. A disputa do poder não pode transformar-se em luta ensandecida, no confronto de posições antagônicas. É certo que haverá açodados, como sempre os houve, defendendo passos insensatos, ou retorno a algumas práticas do passado. Mas não é possível governar nos extremos. Como na barra da balança, o ponto de equilíbrio é o meio exato; como na alavanca, o apoio deve localizar-se no centro do arco de gravidade. Faça-se ou não candidato, eleja-se ou não se eleja, Aécio está dando ao Brasil o velho recado de Minas. O objetivo da política é a soma, a aglutinação das pessoas em torno de projetos para o bem comum. A fronteira do entendimento, na política, é a da soberania do país. Cavalgando essa razão, Aécio não se põe como anti-Lula, mas disposto a avançar no mesmo projeto de Brasil.

Aécio almoçou ontem com Ciro Gomes. O ex-governador do Ceará, que já anunciou sua postulação presidencial, dispôs-se, como se noticiou, a dela desistir – se Aécio for candidato. Conforme apontam as pesquisas, trata-se de um apoio poderoso.

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From → Sociedade

6 Comentários
  1. Saudações!
    Amigo Erick,
    Um artigo dO Mauro, é de alto nível, esclarecendo pontos importantes para a construção- costura- na arte de aglutinar forças. Não conheço nada meu amigo, mas, a meu ver a escola mineira, deve ser respeita e sem dúvidas por muitas décadas será uma referência!
    E depois o governador, Aécio Neves, é uma ótima opção!
    Parabéns pelo excelente Post!
    Abraços fraternos,
    LISON.

    • erickfigueiredo permalink

      Também concordei com o equilibrado artigo. Obrigado pelo comentário.

  2. Pai, acho que já expus a minha opinião sobre o Aécio Neves de forma bem calorosa aqui em casa e eu somente repetiria o que tenho dito dentro dessas 4 paredes se afirmasse mais uma vez que é um “imbecil” e ponto.
    Poderíamos até comparar Aécio Neves com Juscelino Kubitschek e associar os dois à segunda palavra de nossa bandeira: Progresso! É o que muitos podem pensar quando vislumbram o moderníssimo projeto arquitetônico de Niemeyer na Linha Verde estrategicamente instalado entre o aeroporto internacional Tancredo Neves e a cidade de Belo Horizonte. Aécio quer essa comparação e pode até ser digno dela.
    O único problema é que não estamos mais na década de 50 e que os isolamentos são muito mais sociais do que geográficos. Em contrapartida a essa declaração, não nos cabe subestimar a composição geográfica do nosso país que conta com dimensões continentais, pois foram exatamente as disparidades ambientais que muito contribuíram para o cenário social nesse país ou, tampouco, a presunção simplista de que podemos transpô-las com tratores, engenheiros e manobras desnaturadas. Sempre fica a impressão do homem querendo ser deus e ao mesmo tempo submisso a adaptação da natureza.
    Acho que o progresso no Brasil se fará quando finalmente as pessoas puderem trabalhar pelas suas comunidades sem terem de migrar rumo ao progresso e nem que alguma figura político-messiânica prometa levar o progresso até elas. Há de se encontrar o progresso onde estamos sem contudo devastar, modernizar, “coisificar” os nossos recursos. Acho que nenhum argumento falará mais do que os versos de Drummond sobre essa concepção de planejamentos faraônicos:

    Por que ruas tão largas?
    Por que ruas tão retas?
    Meu passo torto
    foi regulado pelos becos tortos
    de onde venho.
    (…)
    Aqui tudo é exposto
    evidente
    cintilante. Aqui
    obrigam-me a nascer de novo, desarmado.

    Passo pela Aeciolândia e vejo todos se inclinarem nos ônibus emitindo um “uau” entre outros comentários; fecho meus olhos e penso: “Aqui não há palmeiras como aquelas imperiais da praça da Liberdade, exatamente na alameda central”.

    • erickfigueiredo permalink

      Tua opinião é importante para mim. Entretanto, a função de líder da Nação é liderar e aglutinar forças para a união nacional. Neste aspecto havemos de convir que Aécio é mestre pois se coloca, como no artigo de Santaiana, como aglutinador de forças que poderão dar prosseguimento ao desenvolvimento nacional.
      Temos um projeto nacional e precisamos alocar para este projeto um líder. Todos temos defeitos e qualidades resta saber se, em um determinado momento, estas mesmas qualidades e defeitos, serão úteis para o projeto ao qual alocamos o recurso.

  3. erickfigueiredo :
    Todos temos defeitos e qualidades resta saber se, em um determinado momento, estas mesmas qualidades e defeitos, serão úteis para o projeto ao qual alocamos o recurso.

    Então, eu falei sobre isso: “O único problema é que não estamos mais na década de 50”

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