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Indústria siderúrgica e a conquista dos trabalhadores brasileiros – 191 anos de luta

11/01/2009
Fábrica_ferro_Sorocaba_1884

Fábrica de Ferro Sorocaba em 1884

Há exatos 191 anos, em 1º de novembro de 1818 era iniciada a 1ª fundição de ferro industrial do país em Ipanema, localidade próxima à Sorocaba. Um marco histórico para o interior de São Paulo, mas de triste memória para a sociedade, pois naquela época existia ainda o trabalho escravo. Achei interessante abordar este aspecto da escravidão porque sempre associamos o trabalho escravo como inerente ao campo e a trabalhos domésticos. Não era assim. Só não existiam mais escravos em atividades industriais por falta destas mesmas atividades, não por razões humanísticas.

A produção do ferro, até a chegada da família real portuguesa ao Brasil, era de instrumentos fabricados de forma artesanal e precária porque era ilegal. Produziam-se apenas instrumentos agrícolas e ferramentas sem que houvesse produção industrial. Com a vinda da família real, houve uma abertura do Brasil, permitindo-se instalações de indústrias locais. Tal permissão se deu em virtude da necessidade da produção deipanema1 utensílios e, principalmente, de armamentos necessários à defesa da coroa, já que Lisboa se encontrava ocupada pelos franceses. Houve a instalação desta sociedade, na qual Portugal participava com 13 ações e 47 ações de acionistas particulares. As ações portuguesas destinavam-se a garantir a produção de armas, enquanto as demais garantiam a produção de instrumentos,  utensílios e maquinários destinados à manutenção da vida civil.

A instalação da fábrica em Sorocaba se deu pela descoberta de minério de ferro na região. Afonso Sardinha, ao procurar ouro na região, descobriu, em 1589, que a região, embora pobre em ouro, possuía minério de ferro. E ele passa a fabricar pequenos instrumentos. A partir da chegada da coroa e da permissão para instalação de fábricas, em 1811, nas proximidades da atual Sorocaba, onde hoje se localiza Iperó, iniciou-se a construção da “Real Fábrica de Ferro Ipanema”. Nesta ocasião, a então fazenda de Ipanema começou a receber africanos. Desde então, o número de  trabalhadores aumentou e, entre eles, os africanos livres. Em 1837, trabalhavam ali 121 escravos (68 homens, 24 mulherese 29 “crioulos”) e 48 africanos livres (30 homens e 18 mulheres).

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O interior da fábrica hoje

Excetuados 12 escravos e um africano fugidos, a fábrica contava com 169 trabalhadores. Quatro anos depois, o número de escravos havia diminuído, mas fora amplamente compensado pelos africanos livres e presos sentenciados: 45 livres (incluindo os diretores de Ipanema), 9 guardas municipais, 88 escravos, 33 crioulos, 42 presos e 104 africanos livres, além de 5 “crias das africanas” viviam na fábrica, totalizando 312 trabalhadores (excetuados os guardas e as “crias”).

Como podemos ver, a principal mão de obra utilizada era a de escravos. Naquela época, não consideravam-se os negros como seres humanos, mas simplesmente como mão de obra. A situação escrava perdurou durante muito tempo.

Em 1821 a coroa volta para Portugal e, em 1822, transformando-se Portugal em uma monarquia constitucional passando o Brasil à condição de Reino Unido tendo, logo a seguir, declarado sua independência de Portugal.

Haviam manifestações contra a escravatura. Estas manifestações eram patrocinadas pelos liberais progressistas, influenciados pela Inglaterra e pela sua Revolução Industrial, que propiciou a evolução do pensamento econômico. Eram, na época os progressistas ou o que hoje chamaríamos de “esquerdistas”.

Em 7 de novembro de 1831, já no governo de D.Pedro II, entrava em vigor a primeira proibição ao comércio de africanos para o Brasil. Normalmente, esse dispositivo legal é lembrado como letra morta que, ao contrário de inibir o tráfico, gerou um imenso contrabando de escravos. Definiu-se, pela lei, que “todos os escravos que entrarem no território ou portos do Brasil, vindos de fora, ficam livres” criando-se, assim, os termos legais que deram aos escravos contrabandeados a partir de 1831 o estatuto especial de africanos livres”. A criação desse estatuto, que atendia às demandas de parte da elite política e dos senhores de escravos, foi o arranjo possível para uma situação em que o tráfico estava legalmente proibido e a visão sobre os africanos na sociedade brasileira era bastante desfavorável. Além disso, a lei previa a reexportação para a África dos escravos introduzidos depois de 1831. Até que isto ocorresse, o governo deveria encontrar meios para a sobrevivência dos africanos contrabandeados, respeitando sua condição legal de homens livres, mas que na prática estavam obrigados à prestação de serviços.

Em 1850, o tráfico de escravos foi novamente proibido. O destino dos africanos apreendidos nos navios contrabandistas foi redefinido pelo regulamento da nova lei: até que fossem reexportados – desta vez por conta do governo – trabalhariam “debaixo da tutela do governo, não sendo em caso algum concedidos os seus serviços a particulares”. A questão era que o governo tinha um controle muito reduzido sobre os africanos que desembarcavam contrabandeados no país. Mesmo aqueles que eram apreendidos e colocados sob a custódia das autoridades policiais tornaram-se objetos de uma ampla rede de corrupção interessada nessa fatia preciosa de força de trabalho.

carteiratrabalhoA situação dos escravos perdurou por muito tempo (será que acabou?) e os patrões sempre classificaram estes escravos como indolentes. A abolição da escravatura em 1888 foi o estopim que deflagrou o golpe militar que ensejou a proclamação da República um ano depois, motivado pela falta de indenização aos senhores de escravos, provocados por aquela turba progressista que desejava tanto a libertação dos escravos. Assim, o trabalho escravo passou a ser “tolerado” pela república velha até  não à libertação definitiva do trabalhador, que continuou escravo até 1º de maio de 1943, com a promulgação, por Getúlio Vargas, da Consolidação das Leis do Trabalho.

Mas o movimento progressista continua com os baderneiros e os sindicatos querendo cada vez mais…

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From → Sociedade

2 Comentários
  1. Olá, Erick!

    Realmente, a escravidão foi um episódio que deixou marcas profundas em nossa história, maculando nossa imagem de uma nação boa, ordeira, respeitadora e muito feliz. Infelizmente, o fim da escravidão há mais de 12o anos não foi sificiente para apagar essa marca terrível. Atualmente, apesar das disficuldades em alguns setores, temos um mercado de trabalho funcionando muito bem.

    Abraços

    Francisco Castro

    • erickfigueiredo permalink

      Obrigado pelo comentário. Realmente à custa de muita luta, os trabalhadores têm conquistado muito. Mas ainda falta bastante.

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