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A transposição do Rio São Francisco

10/20/2009

A obra de revitalização e integração do rio São Francisco é um reparo histórico com a parte do Brasil que sofre severamente com a seca e vai ajudar a tirar o atraso a que o Norte e o Nordeste foram submetidos. O projeto, afirmou Lula em entrevista coletiva concedida a jornalistas no município de Barra (BA), vai fazer com que “a gente possa chegar, ainda no século XXI, a ver o Brasil mais uniforme, mais igual e mais justo.”

A transposição não resolverá definitivamente o problema da seca mas resolverá a situação da população de alguns milhares de quilômetros situados nas bacias do rio Jaguaribe (Ceará) e Piranhas/Açu, no Rio Grande do Norte. A área de sêca soma 750.000 km2 beneficiando 12 milhões de pessoas e a irrigação de polos agrícolas aquecerá a economia e aumentará o número de empregos na região.

Outras áreas da região não podem se transformar em oásis semelhante às terras irrigadas do Vale do São Francisco? É aí que se insere o plano de transposição das águas do rio São Francisco, que no governo Lula ressurgiu com força. Trata-se de um projeto grandioso. O objetivo é desviar de 50 a 60 metros cúbicos das águas do São Francisco por segundo e jogá-las nos rios que cruzam o semi-árido nordestino, tornando-os perenes.

Com isso, seria possível irrigar uma área de 330 mil hectares. Há ainda estudos que sugerem engrossar as águas do São Francisco a serem transpostas com o volume excedente de bacias vizinhas. Espalhadas pelo semi-árido por uma rede de canais e reservatórios, essas águas poderiam irrigar uma área de 1,6 milhão de hectares. O custo estimado do projeto a ser implantado num prazo de 20 anos é de 18,5 bilhões de dólares.

Saber se a idéia de transposição das águas do São Francisco é mesmo a melhor solução para o Nordeste é uma tarefa que cabe aos brasileiros discutir. Um fato positivo sobressai, desde já: finalmente, começa-se a pensar numa solução de longo prazo, para enfrentar, de forma permanente, a seca e a miséria endêmica do sertão nordestino. Mas as decisões precisam ser ágeis.

Enquanto isto a mídia paulistana rema contra. “Alojamento de Lula tem risoto, uísque e roda de viola até a madrugada.” Sob esse título auto-explicativo, a Folha [edição de 16-10] resumiu em uma retranca o espírito da cobertura oferecida aos seus leitores durante a viagem de três dias feita pelo Presidente Lula às obras de interligação de bacias do rio São Francisco, uma das mais importantes do seu governo.

O propósito de diminuir e tratar o assunto com escárnio e frivolidade se reafirmou em legendas de primeira página ao longo da visita. No dia 15-10, o jornal carimbava uma foto de Lula e da ministra Dilma Rousseff pescando no São Francisco, em Buritizeiro (MG), com a chamada: ‘Conversa de Pescadores’ . A associação entre a legenda e o discurso da oposição, para quem as obras são fictícias e a viagem, eleitoreira, sintetiza o engajamento de um jornalismo que já não se preocupa mais em simular isenção.

No dia 17, de novo na primeira página , o jornal estampa a foto do Presidente atravessando o concreto ainda fresco sobre a legenda colegial: ‘A ponte do rio que caiu’. A imagem de Lula equilibrando-se em tábuas improvisadas inoculava no leitor a versão martelada em toda a cobertura: trata-se de uma construção improvisada, feita a toque de caixa, com objetivo apenas eleitoreiro. É enfadonho dizê-lo, mas o próprio jornal se contradiz ao entrevistar Dom Luis Cappio, o bispo de Barra (BA), um crítico ferrenho da obra. Segundo afirmou o religioso ao jornal, ‘as obras avançam como um tsunami’. Sua crítica recai no que afirma ser a ‘marolinha’ das medidas – indispensáveis – de recuperação ambiental do rio. Diga-se a favor do governo que estas, naturalmente, serão de implementação mais lenta, na verdade talvez exijam um programa permanente.

Como o próprio bispo de Barra esclarece, não se trata apenas de promover o saneamento de esgotos e dejetos nas cidades ribeirinhas, como já vem sendo feito, ineditamente, talvez, na história dos rios brasileiros de abrangência interestadual. O resgate efeitvo do São Francisco passa também pela recuperação das matas ciliares, prevista nas obras, mas remete igualmente à recuperação de toda a ecologia à montante e para além dos beiradões, inclusive as veredas distantes onde estão nascentes, olhos d’água, lagoas de reprodução destruídos pela rapinagem madereira e carvoeira. Só quem acredita em milagres pode exigir, como faz Dom Cáppio, que um único governo reverta essa espiral de cinco séculos de omissão pública da parte, inclusive, daqueles que demagogicamente criticam as obras hoje como ‘uma ameaça ao velho Chico’.

A mídia paulistana e as organizações Globo pautam as críticas da oposição que critica a visita de Lula, o responsável pelas obras, às obras do governo federal. Mas no fim de semana passado, o governador de São Paulo, José Serra (PSDB), também esteve na região. Durante visita à cidade de Petrolina, no interior de Pernambuco, observou projetos criados pelo governo Fernando Henrique Cardoso (1995-2002), mas que hoje estão com as obras paradas. Mas a visita dele não foi eleitoreira. Talvez Petrolina faça parte da República de São Paulo. Provável candidato do PSDB às eleições presidenciais de 2010, Serra aproveitou para criticar a falta de obras de irrigação na região.

Artigo com inserções do Blog do Planalto, Carta Maior e Portal Vermelho

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From → Sociedade

6 Comentários
  1. Saudações!
    Amigo Erick,
    Excelente Post!
    É uma obra de grande relevância social que vai ao encontro de milhares de brasileiros que lutam de sol a sol para construir um mundo melhor!
    O cuidado ao meio ambiente deve nortear o grande projeto, por ser de responsabilidade de todos, e com certeza os ajustes, e devidas correções acontecerão no momento certo. Depois um projeto dessa envergadura, ao que sei, é só no Brasil que está acontecendo.
    E o povo brasileiro, com seus pesquisadores, cientistas e a sociedade, haverão de encontrar as soluções e a conciliação acontecerá mais cedo ou tarde para a viabilidade final.
    Parabéns pelo excelente texto!
    Abraços!
    LISON.

    • erickfigueiredo permalink

      Obrigado pelo teu sempre ponderado e profundo comentário, amigo. Abraços.

  2. Finalmente o Brasil está olhando para o sertão nordestino! Essa população não pode ser condenada a morrer na fome, na sede e na miséria apenas para que o governador de São Paulo, de forma não eleitoreira, possa passear pelo nordeste vendo obras paradas da gestão de seu correligionário, da qual participou. O que fez Serra em prol do semi-árido? O que fizeram Folha, Estadão e os demais jornalões em favor do semi-árido? O mesmo que fizeram em favor do São Francisco: nada. O povo brasileiro não pode ser mais refém desses interesses mesquinhos.

    • erickfigueiredo permalink

      A mídia tendenciosa serve apenas aos interesses da oligarquia paulista que ainda espera a posse de Luiz Carlos Prestes, repudiando Getúlio Vargas e todos aqueles que fizeram algo para o povo e os trabalhadores imaginando ser um país dentro do país.
      Esta mesma mídia não vê que a libertação dos escravos impulsionou a economia alavancando novos negócios através do aumento de consumidores. Não vê também que políticas que favorecem à ascensão dos pobres ao consumo aumenta o número de consumidores melhorando os negócios e a situação financeira do país como um todo. Não vê que os empreendedores são necessários mas que precisam ser governados e direcionados pois se dependêssemos deles estaríamos até hoje na monocultura do café. Só espero que existam empreendedores competentes que vejam estas obviedades e caiam em si, repudiando o néoliberalismo.
      A fixação do nordestino em seu local de origem melhorará o Brasil como um todo e impulsionará a economia, trazendo benefícios reais até mesmo para aqueles que se fixam no eixo Folha, Veja, Estado e Globo criticando o que se faz de bom a almejando retornar ao que existiu de ruim.

  3. Paulo Afonso da Mata Machado permalink

    Erick, parabéns pelo texto!
    No entanto, tudo que está bom pode melhorar.
    O Projeto São Francisco poderá ter uma eficácia muito maior.
    Para isso, basta alterar os canais de transposição, que devem mudar de concreto para simplesmente escavados no solo.
    Canais escavados em rocha vão funcionar como rios perenes, devendo suas margens ser protegidas por matas ciliares.
    Durante a estação de chuvas (e, no Nordeste, elas são muito intensas, apesar de poucas) vão se formar lagoas marginais onde os peixes poderão se reproduzir.
    Os peixes originários da bacia do São Francisco vão enriquecer a fauna das bacias receptoras.
    Apesar de o solo não ser apropriado para infiltração, ocorrerá uma pequena infiltração que vai elevar o nível do lençol freático. Quando Sobradinho estiver vertendo, uma pequena parcela será armazenada no lençol freático.
    Por outro lado, quando a vazão captada for a menor prevista em projeto, vai percolar água do lençol freático, aumentando a vazão dos canais.
    A população que habitará as terras desaprorpiadas pelo Governo vai ter água em seus poços durante o ano inteiro e não apenas no período de chuvas.
    Durante o período de chuva, a drenagem vai erodir o solo e ir direto para o canal escavado em terra, aumentando sua vazão, o que não acontecerá nos canais de concreto, pois estes não sofrerão erosão e a água se empoçará em suas margens. Já pensaram numa enchente causada às margens dos canais de transposição?
    Além disso, um rompimento na geomembrana de impermeabilização vai exigir parada de bombeamento para manutenção. Nos canais escavados em terra, não haverá membrana de impermeabilização.
    Tudo isso será obtido com a construção de canais escavados no solo, muito mais baratos que os canais de concreto.

    • erickfigueiredo permalink

      Obrigado pelas preciosas informações e pelo comentário que enriqueceu o post.

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