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O herói das selvas foi meu pai

08/08/2009

Ele viveu na selva. Suas histórias estão presentes até hoje. Algumas lições que aprendi:
Onças que invadem a aldeia – quando uma onça invade a aldeia e come um animal doméstico, significa que perdeu o respeito ao homem e, neste caso, não tem jeito de conservá-la: é preciso caçá-la, pois o próximo a ser comido pode ser um habitante.
Macacos bugio – seres extremamente inteligentes que invadiam as plantações de milho em fila indiana. Baixavam a cerca e deixavam o buraco aberto para que todos pudessem entrar e sair. Dividiam-se em grupos: os que faziam a colheita, descascavam duas folhas e amarravam as espigas uma na outra. Depois vinham os carregadores que juntavam as espigas cuidadosamente amarradas e colocavam nas costas, transportando-as para fora da roça. Haviam ainda os que ficavam de guarda trepados em árvores e encarregados de fazer o maior estardalhaço caso vissem alguém se aproximando. O trabalho era em grupo e rápido. Num instantinho a roça estava pilhada.
Jacarés – enquanto as mulheres lavavam a roupa na beira do rio, ficavam de olho pois dois olhos se aproximariam já no raso partindo em perseguição às lavadeiras, que tinham que ser rápidas e correr o máximo que pudessem por uns duzentos metros, pois um jacaré não corre tudo isso. Ele se cansa, cai de barriga na terra e se arrasta de volta para a água.
Jibóias – animal extremamente perigoso e cheio de mistérios. A fama de comer um boi é puro exagero, pois não chega a comer um carneiro, que digere vagarosamente até que os chifres caiam. Entretanto as maiores eram capazes de triturar um homem e digeri-lo sem grande esforço.
Tamanduá-bandeira – Um edentado que come formigas. Sua defesa é ficar parado no meio da mata confundindo-se com a vegetação. A mata cerrada e sua cor faz com que fique invisível. Mas cuidado: se você chegar muito perto ele te dá um abraço e fincará nas tuas costas unhas de mais de vinte centímetros e não soltará mais. Você poderá morrer neste terrível abraço.
Eram estas algumas poucas das muitas histórias que ouvia de meu pai, enquanto ele escutava, na rádio Nacional, um programa de música dos nossos vizinhos, talvez lembrando-se do tempo no qual conviveu com paraguaios, principalmente. Ele era meu “Animal Planet” vivo e contava as histórias com graça e veracidade… Ele viveu lá no pantanal há mais de cinqüenta anos atrás. E aindam tinha os tropeiros que levavam o gado para as invernadas e daí para a cidade grande…
Um misto de Indiana Jones e Vaqueiro valente. E eu, todo ouvidos, tive o orgulho de ter um pai verdadeiramente herói, que viveu nas selvas e nas fazendas de gado. Conviveu com índios, conheceu o Paraguai, viu a revolução de 1932, os tiros espocando…
Saudades de meu pai um herói que, entre uma história e outra, me ensinou a ser gente.
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From → Atualidades

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